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CRIMES

Lula e Bolsonaro contemplam Suzano e Marielle: visões opostas

Este é um dos principais motivos pelo quais personalidades públicas e especialmente autoridades governamentais cercam-se de assessores e consultores: para garantir controle sobre a emissão, sobre a imagem projetada. Nas crises, os controles afrouxam-se

14/03/19, 16:46
Por Mauro Lopes, jornalista
 
E
m momentos de comoção e crise apresentamo-nos muito mais transparentes que em "tempos normais", quando em geral temos um controle maior sobre a projeção de nós mesmos para o mundo e as outras pessoas. Nas crises, abre-se um intervalo de "verdade" -apresentamo-nos mais próximos, mais colados ao que verdadeiramente somos, pois estamos momentaneamente despidos de véus.

Este é um dos principais motivos pelo quais personalidades públicas e especialmente autoridades governamentais cercam-se de assessores e consultores: para garantir controle sobre a emissão, sobre a imagem projetada. Nas crises, os controles afrouxam-se. O país viveu uma crise nesta quarta (13) -mais propriamente, uma tragédia, em Suzano, com 10 mortes e quase o mesmo número de feridos a chorar.

Como manifestaram-se os dois líderes que representam as visões de mundos, os projetos políticos (econômicos, sociais, culturais) e os caminhos de espiritualidade em choque no país? Como manifestaram-se Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva?

Examinar sua manifestação é enxergar, com maior transparência, o que verdadeiramente pensam a extrema-direita e a esquerda sobre o país. E o que vimos são visões antípodas (situados em polos diametralmente opostos) sobre a vida e tudo o mais.

Comecemos por Bolsonaro.

O primeiro dado a levar em conta é que tenha demorado quase sete horas para se manifestar. O país em estado de choque desde a metade da manhã e ele escondido, reticente, em meio a cálculos, desconfortável. Aquele que é tão "rápido no gatilho" (para usar uma imagem cara aos bolsonaristas) ficou silente e receoso por horas.

Soltou um tuíte ás 16h. É claro que já havia elaboração e assessoria no texto. Mas o próprio erro de português ("atendado" por "atentado") indica que ele mesmo digitou e disparou a mensagem. O texto:

"Presto minhas condolências aos familiares das vítimas do desumano atentado ocorrido hoje na Escola Professor Raul Brasil, em Suzano, São Paulo. Uma monstruosidade e covardia sem tamanho. Que Deus conforte o coração de todos"

Vamos cotejar com o texto de Lula.

Foi uma nota manuscrita, depois digitada, que ele mandou da cadeia em Curitiba. Saiu ainda depois da de Bolsonaro, já de noite, mas não por vontade ou cálculo, e sim por sua condição de preso político e as dificuldade naturais de uma situação dessas.

O texto de Lula:

"Toda solidariedade aos alunos e trabalhadores da escola Raul Brasil e aos familiares das vítimas que hoje enfrentaram essa terrível tragédia. Que aqueles que incentivam a cultura do ódio e da violência entendam que não precisamos de mais armas para que massacres com o de Suzano não se tornem cotidianos em nosso país. O Brasil precisa de paz."

A primeira escolha já desnuda ambos.

Bolsonaro escreve a palavra "condolências", a mais formal e distanciada expressão que se pode dirigir a alguém enlutado. Não há empatia, identidade.

Lula escolhe "solidariedade", palavra que mobiliza o sentido de ir em direção de alguém, de proximidade e abraço.

A quem se dirigem Bolsonaro e Lula? Bolsonaro lança sua mensagem "aos familiares das vítimas". Lula amplia: "aos alunos e trabalhadores da escola Raul Brasil e aos familiares das vítimas". Para o primeiro, é uma tragédia de foro familiar; para o segundo, ela tem dimensão familiar, comunitária, social. Para Lula, todos são vítimas, alunos, trabalhadores (comunidade) e as famílias. Para Bolsonaro, só merece a mão estendida quem tem alguma vítima na família.

Como eles qualificam o que aconteceu? Bolsonaro diz que houve um "desumano atentado" e uma "monstruosidade e covardia sem tamanho". Lula diz que houve uma "terrível tragédia".

Bolsonaro mobiiiza a palavra que ele mais tem usado pare referir a facada que sofreu: "atentado". O fato de exatamente ela ter sido redigida com erro é significativo do jogo de "mostra-esconde" do uso da palavra: pessoa quase totalmente autorrefeente, Bolsonaro deixa escapar que lhe importa é ele próprio, e não as vítimas de Suzano. Há um sentido de agressividade patente com o uso de "monstruosidade" e "covardia" como qualificativos do que aconteceu: elas preparam o próximo passo, que é o de procurar culpados (os "monstros" e os "covardes") e lançar o brado "às armas!" contra eles. Ele não se refere aos jovens que matarem e suicidaram-se a seguir. A advertência de Bolsonaro ao usar as palavras é contra aqueles que considera seus inimigos - pois sua vida é feita de fixação neles.

Lula não aponta o dedo, não busca culpados, não acusa. Uma tragédia. Uma desgraça que recai sobre todos, os que foram feridos, os que morreram, os que mataram e morreram, as famílias destroçadas de todos e a comunidade escolar e seu entorno. Não há ódio nem inimigos a abater. Só mortes a chorar.

Como eles encerram suas mensagens? Bolsonaro convoca seu deus, como sempre. Lula coloca-se natualmente como líder do país e faz uma advertência aos "que incentivam a cultura do ódio e da violência" para que "entendam que não precisamos de mais armas para que massacres com o de Suzano não se tornem cotidianos em nosso país". E termina usando uma palavra que inexiste no dicionário bolsonarista: "paz".

Em suas manifestações sobre Marielle, cuja memória do assassinato atravessa o Brasil e o mundo, repete-se o mesmo espírito. Para Lula, "o Brasil precisa de paz, de Marielles, de democracia, de solidariedade". Há dois dias, quando foram descobertos os assassinos de Marielle, vimos um Bolsonaro incomodado, reticente, irritado dizer: "Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a quem foram os executores, se é que foram eles". Esta frase que quase trai a solidariedade aos assassinos, seus conhecidos, gente de sua gente (policiais militares), um deles seu vizinho. Mas não foi o ponto culminante da curta declaração aos jornalistas. Ela veio na forma de uma expressão mais uma vez autorrefenciada que deveria soar como uma enorme, monumental sirene de alerta a todo o país: "também estou interessado em saber quem mandou me matar" -a Bolsonaro interessa só e exclusivamente ele próprio, Bolsonaro.

Livre, Bolsonaro está aprisionado em sua armadura. Uma nota gélida, incapaz de compaixão -a palavra é de origem latina, "passiones" é sofrimento, "cum" é com, ou seja: "sofrer com". Compaixão, portanto, é ser capaz de sofrer com. Bolsonaro é incapaz disto, exceto com aqueles que considera os "seus", o próprio clã e o universo de policiais e militares que estruturam sua vida relacional. O povo brasileiro não lhe diz respeito.

Preso em Curitiba, Lula está livre. É capaz de compaixão, mesmo arrostando a dor da recentíssima perda de seu neto Arthur. Levanta-se sobre sua própria tragédia pessoal para estender a mão àqueles que experimentam outra tragédia -para usar a expressão que ele escolheu para definir o que aconteceu em Suzano. Lula é totalmente empático com o povo e com suas dores. Sofre com (compaixão) os seus. Mas os seus são diferentes dos de Bolsonaro. Os seus são os pobres e as camadas médias que compõem o povo brasileiro.
 
Fonte: JL
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