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ARTIGO

Educando filhos em tempos de cólera

Teve a paciência de ouvir que o candidato da extrema-direita, certa vez, resolveu pesar um indivíduo negro com uma medida utilizada para gado, comparando, ou melhor, rebaixando, indivíduos de pele escura à condição de animais

11/10/18, 19:38
Por Marcelo Gruman, Doutor em Antropologia Social (MN/UFRJ); especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura (UnB); atualmente é administrador cultural da Funarte/MinC (foto)
 
M
eu filho gosta de jogar futebol. Ganhou de presente de aniversário da tia uma bola novinha. Mal acostumado a ter o pai como parceiro de chutes descalibrados sempre que dá na veneta, na pequena quadra multiuso do condomínio, fez o convite dia desses. Calçou a chuteira velha de guerra, já toda estropiada, apesar do relativamente pouco tempo de uso, embora intensíssimo, e deu início às tentativas, geralmente infrutíferas, de colocar em prática os dribles aprendidos na escola ou com o próprio pai, especialmente o clássico "elástico" criado por mestre Rivelino. Eternamente insatisfeito, sempre pede "só mais um gol" depois de o pai decretar o fim da partida porque é hora de voltar para casa, tomar banho e jantar.
 
A última vez em que batalhamos a batalha dos pernas-de-pau foi no dia posterior ao primeiro turno das eleições presidenciais. Bola para cá, bola para lá, meu filho puxa conversa. Comenta que muitos coleguinhas de turma dizem que vão votar no candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, no segundo turno. Acho graça e respondo a ele que os coleguinhas, por mais politizados que sejam, ainda não podem votar. Digo que, possivelmente, os pais desses coleguinhas vão votar em Bolsonaro e que os coleguinhas estão reproduzindo, em solidariedade, os desejos, valores e crenças dos pais. Até aí, nada de mais, porque os pais ensinam aos filhos aquilo em acreditam ser o certo. Então, travou-se o seguinte diálogo:
 
- Papai, um amigo me contou uma brincadeira que o pai dele ensinou para ele.
- Ah, é, meu filho? E como é essa brincadeira?
- Quantas letras tem a palavra "Deus"?
- A palavra "Deus" tem quatro letras.
- E quantas letras tem a palavra "família"?
- A palavra "família" tem sete letras.
- E quantas letras tem a palavra...
- (Já imaginando o que vinha pela frente, arrisquei) "Pátria", meu filho?
- Não, não é "pátria"...
- Tem certeza? Acho que é "pátria". Digamos que seja, meu filho. Como segue a brincadeira?
- Quantas letras tem a palavra "pátria", então?
- A palavra "pátria" tem seis letras.
- E quanto dá a soma disso tudo?
- Ah, entendi, meu filho! A soma dá 17, que é o número do Bolsonaro, né?
- É isso mesmo. Agora, papai, tira o número de letras da palavra "Deus". E quanto fica?
- Fica 13, que é o número do candidato do PT.
- É. Ele fica sem Deus. Deus não está com ele.
 
Respirei fundo. Minha primeira reação foi responder àquela "brincadeira", mas achei melhor curtir o momento futebolístico, pensar calmamente no que dizer em resposta ao discurso das trevas e da intolerância dos "cidadãos de bem". Já de banho tomado e barriga forrada com sanduíches de pão francês, requeijão e presunto – dos seus preferidos, como o Chaves – meu filho teve a paciência de escutar a nossa versão da História.
 
Teve a paciência de ouvir que o candidato da extrema-direita defende a tortura, e que a tortura não é simplesmente machucar uma pessoa, mas machucá-la com requintes de crueldade, e que é uma coisa que nem os animais fazem. E que a tortura é usada por gente intolerante que não aceita opiniões distintas da sua. E que o candidato da extrema-direita defende a ditadura, e que a ditadura é um governo que não deixa você pensar e falar o que pensa se o que você pensa e fala não condiz com o que o governo diz que é o "certo". Censura.
 
Teve a paciência de ouvir que o candidato da extrema-direita, certa vez, resolveu pesar um indivíduo negro com uma medida utilizada para gado, comparando, ou melhor, rebaixando, indivíduos de pele escura à condição de animais.
 
Teve a paciência de ouvir que o candidato da extrema-direita não tem muito apreço pelas mulheres, já que mereceriam receber um salário menor que os homens.
 
Teve a paciência de ouvir que o candidato da extrema-direita acha que homossexuais são indivíduos doentes, assim como os judeus, grupo do qual seu pai faz parte, eram considerados um "câncer" a ser extirpado da sociedade alemã durante o regime hitlerista porque eram inferiores aos alemães "puros", e que os homossexuais merecem "tomar porrada" para, quem sabe, retomarem o caminho da normalidade heterossexual.
 
Teve a paciência de ouvir que seu pai e sua mãe não compartilham dessas posições, muito pelo contrário. Que nada é melhor que a democracia; que não se mede a bondade, a honestidade, a ética de uma pessoa pela cor de sua pele; que os homens não são melhores que as mulheres e que ambos devem ter direitos e deveres iguais perante a lei; que as pessoas devem ter a liberdade de amar quem bem entenderem, seja alguém com órgãos genitais diferentes dos seus ou com os mesmos órgãos genitais, e que o importante é o amor e a felicidade, e que a família não é formada apenas por "pai, mãe e filhos" e que famílias podem ser formadas por duas mães ou dois pais ou por apenas uma mãe ou um pai e que a transmissão de valores fundamentais à vida numa sociedade democrática e inclusiva independe da constituição fisiológica de quem transmite esses valores.
 
Ouviu também que o governo – é mais fácil falar de "governo" do que de "Estado" - não tem que ter uma religião, mas tem o dever de defender o direito de quem tem uma religião de exercê-la quando e onde bem entender, tanto quanto deve defender o direito de quem NÃO tem religião alguma de continuar não tendo, o que significa, portanto, que a falta de Deus ou de religiosidade não relega esses indivíduos ao fogo eterno do inferno. Que a mistura de religião e política é sempre, SEMPRE, danosa, sempre antidemocrática. Ouviu sobre a Inquisição na Espanha e em Portugal, antes mesmo do Brasil ser descoberto.
 
"Brasil Acima de Tudo". "Deus, Pátria e Família". Luta inglória essa nossa de educar os filhos para a liberdade, a igualdade e a fraternidade num contexto social contaminado por ideias que representam o "outro" como indigno de sobreviver no mesmo espaço físico ou, no limite, simplesmente sobreviver. É preocupante e angustiante imaginar que uma geração inteira está sendo formada intelectualmente a partir de preconceitos e estigmas, de uma visão de mundo excludente, intolerante e violenta.
 
Resiliência.
 
Fonte: JL
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