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OPINIÃO

Em Briga de Marido e Mulher, Não Se Mete A Colher

04/08/07, 09:36
por Raimundo Silveira - médico e escritor
 
Dizem que em Belém do Pará os compromissos são marcados para antes ou para depois da chuva. Pois numa certa aldeia nordestina era quase igual. Só que em vez de chuva era surra. "Então fica combinado. Pra antes ou pra depois da surra?" Sim. A surra era mais certa do que o nascer do sol. E tinha hora marcada. Era um marido, o espancador e a esposa, a espancada. Não se vai dizer motivos ou não motivos porque ninguém nunca soube. Da surra, sim. Pois, além de ser o acontecimento mais importante do lugar, era anunciado aos gritos que se escutavam melhor do que as badaladas do sino da igrejinha. Dizem também que, depois da sova, se arrependia e pedia perdão. Mas não tinha jeito de se ajeitar. 

Entre os porquês e os numseiporquês havia especulações para todos os gostos. Variavam desde preferências nelsonrodrigueanas da mulher, até perversões sexuais do marido. Entre os dois extremos, um mar de tititis e um oceano de cachaça. A coitada não aparecia. Na verdade, nunca foi vista. Suspeita-se que ele a impedia de chegar à janela, para a vizinhança não ver as marcas da sua maldade. Ou era ela própria. Com vergonha de tanta humilhação. O marido era visto saindo de ou entrando em casa. Sempre embriagado. Não trabalhava. Vivia de uma pequena aposentadoria.

Dizem que nem o mal, nem o bem, duram pra sempre, amém. De repente tudo sumiu. Foi como se a cidade tivesse passado por uma reforma completa. Os hábitos da população mudaram radicalmente. Aquela expectativa, que antecedia a cada pancadaria, aos poucos, foi minguando. Todos passaram a usar relógios. As especulações, agora, eram de outra natureza. Teriam feito as pazes? A família dela interveio e o ameaçou? Afinal houve um jeito de ele se ajeitar? Entretanto, só um mistério ainda preocupava: a pobre mulher continuava sem ver a luz do dia. Então, passaram a conjecturar o pior: ele a teria matado. Mas, como seria possível? Pelo que se sabia, quem morre, seja do que for, deixa um corpo. Aonde o escondera? Teria sepultado no quintal? Ou retirado de casa durante alta madrugada e enterrado noutro lugar?

Quanto ao homem, não mudara. Quer estiasse ou desabassem torós. Às vezes, o tempo suava como uma sauna. Noutras, tremia de frio quiném geladeira preste a sucumbir. Ele prosseguia na mesma vida de tonel. Quem não tem o que fazer, sobra tudo pra ser feito. Principalmente o nada. Embora, segundo alguns filósofos, ser e nada, sejam complementares. Conquanto, para outros, antagônicos. Para Winncott, por exemplo o nada-do-ser, é o início de tudo. Para Heidegger, não passaria do ser-para-a-morte. Sendo assim, o marido-carrasco, como ficou sendo conhecido, preferia seguir os postulados do segundo. Uma vez que, na natureza, tudo propende para o caos. Embora ele jamais tivesse escutado este "palavrão".

Subitamente, porém, do mesmo modo como desapareceram, os clamores ressurgiram. Desta feita, também à noite. Os dizquedissess não se limitavam mais apenas aos passatempos. Aos rumores e humores de fofoqueiros. Já se formavam rodinhas em esquinas e praças públicas. Já não eram apanágio de desocupados. Camelôs, sapateiros, jogadores, engraxates, embromadores, sucateiros, também era só no que falavam. 

Professores de certas disciplinas, como Moral e Civismo, simulavam aulas sobre a violência doméstica, só para conversar sobre o tema. Outros, cujas disciplinas nada tinham a ver com briga de marido e mulher, também. Alguns, pretendiam obter a raiz cúbica da intensidade, em decibéis, dos gritos da mulher, a pretexto de ensinar Física e Matemática. Falava-se que, no curral do açougue, as matanças passaram a demorar o dobro do tempo, pois os açougueiros preferiam ouvir os comentários sobre os berros da mulher a escutar os urros dos animais ao ser abatidos. Os compromissos também não puderam ser agendados para o antes e para o depois das sovas. Porque estas não tinham mais hora certa.

Até que um dia, uma coisa muito esquisita aconteceu: A gritaria encalacrou e se dividiu em gritinhos curtos, repetidos, estranhos. Como se a açoitada e o batedor estivessem presos numa vitrola quebrada. E o mistério da pancadaria, enfim, se desfez: O pobre homem nem mulher tinha. Nem mulher, nem nada que o animasse. A não ser aquele toca cd meio segundo time que ele punha pra funcionar a todo volume...
Fonte: JL/Raimundo Silveira
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